
José Gaspar é o novo Chief Technology Officer (CTO) / Diretor Executivo do CoLAB ForestWISE, sucedendo a Carlos Fonseca, que ocupou o cargo desde 2020. José Gaspar toma posse num momento de consolidação estratégica do CoLAB ForestWISE, reforçando a sua posição como uma referência nacional e internacional na promoção da inovação e desenvolvimento de soluções e tecnologias para os desafios da floresta e do fogo, proporcionado por um trajeto de sustentabilidade, focado na criação de valor, e alicerçado nas competências multidisciplinares do seu capital humano.
1. Ao assumir o cargo de Chief Technology Officer do Laboratório Colaborativo para a Gestão Integrada da Floresta e do Fogo (CoLAB ForestWISE), qual é a sua visão para o CoLAB nos próximos anos e qual considerar ser o seu papel na gestão integrada da floresta e do fogo em Portugal?
A minha visão para o CoLAB ForestWISE assenta no reforço do seu posicionamento enquanto entidade de referência na criação e aplicação de conhecimento técnico-científico ao serviço do território. Nos próximos anos, queremos consolidar o nosso papel enquanto instituição de interface entre a ciência, a indústria, a administração pública, a sociedade civil e o território, colocando a inovação ao serviço de uma floresta mais resiliente, mais sustentável com maior valor.
A nossa missão na gestão integrada da floresta e do fogo em Portugal é: contribuir para a transição de um modelo predominantemente reativo, baseado na supressão, para um modelo proativo, onde a prevenção estrutural, a valorização do território e a gestão adaptativa sejam os vetores dominantes. Queremos transformar conhecimento em soluções aplicáveis, escaláveis e com impacto real no território e nas pessoas.
2. Quais considera serem hoje os principais desafios na prevenção e supressão de incêndios rurais em Portugal, e de que forma o ForestWISE contribui para o desígnio de um Portugal mais protegido de incêndios rurais graves?
Os principais desafios passam por ultrapassar um conjunto de debilidades estruturais: o abandono do território e ausência de gestão, a fragmentação fundiária, a carga combustível, a falta de diversificação da paisagem e a intensificação dos fenómenos extremos associados às alterações climáticas. A prevenção estrutural e a ausência de gestão continuam a ser as grandes lacunas, quer em termos de escala, quer em termos de dimensão das intervenções, quer em termos de continuidade das ações ao longo do tempo.
O CoLAB ForestWISE contribui para este desígnio promovendo o desenvolvimento de soluções científicas e tecnológicas com aplicabilidade. Trabalhamos na modelação do comportamento do fogo, na análise de risco, na avaliação da eficácia da gestão de combustível, na promoção de ferramentas de apoio à decisão para agentes de proteção civil, entre outros. Impulsionamos ainda a colaboração multissetorial, essencial para uma abordagem verdadeiramente integrada aos problemas.
3. Pode partilhar alguns exemplos de projetos ou soluções tecnológicas que o ForestWISE esteja a desenvolver ou apoiar? E se tivesse de escolher uma tecnologia disruptiva (ainda pouco utilizada em Portugal) que acredita poder mudar radicalmente a prevenção de incêndios rurais, qual seria? Porquê?
Estamos envolvidos em múltiplos projetos estruturantes, como o FIRE-RES, financiado pela União Europeia, que visa desenvolver soluções inovadoras para territórios expostos a incêndios extremos, ou o RN21, um projeto nacional que reforça a valorização da Resina Natural como ativo da bioeconomia e alternativa à monocultura. No âmbito da Agenda transForm, coordenamos a componente técnico-científica focada na transformação digital da floresta, incluindo ferramentas que tirem partido dos dados LiDAR, sensores remotos e inteligência artificial.
Se tivesse de enunciar uma tecnologia disruptiva ainda pouco disseminada em Portugal, apontaria para sistemas inteligentes de deteção precoce de incêndios baseados em redes de sensores IoT distribuídos no território florestal. Esta abordagem tem o potencial de transformar radicalmente a forma como monitorizamos os combustíveis, o microclima e a deteção dos focos de ignição. A instalação estratégica de sensores com diversas capacidades, com comunicação em tempo real por 5G, permite detetar ignições nos instantes iniciais, recolher dados em contínuo sobre condições de risco, alimentar modelos de previsão e simulação de comportamento do fogo e antecipar estratégias de supressão e mitigação antes que o incêndio atinja dimensões críticas. Embora já existam pilotos (em Portugal e noutros países), a integração deste tipo de sensores em larga escala, com interoperabilidade entre sistemas e ligação direta a plataformas de comando e controlo, ainda está por concretizar. O CoLAB ForestWISE tem vindo a acompanhar estas soluções e poderá, no futuro, assumir um papel catalisador nos testes, validação e aplicação em territórios prioritários.
4. Como se garante que essas inovações chegam efetivamente ao terreno, às comunidades rurais, autarquias ou proprietários, e não ficam apenas em fase piloto ou académica?
Esta é uma das preocupações permanentes do CoLAB ForestWISE. Desde a sua criação, que temos como missão e traduzimos na nossa atividade e atitude a disseminação desse conhecimento, dessas técnicas e metodologias de trabalho, em soluções aplicáveis, com envolvimento direto dos utilizadores finais em todas as fases dos processos. Trabalhamos com municípios, empresas florestais, organizações de produtores, agentes de proteção civil e entidades públicas e privadas, assegurando que os resultados são testados, ajustados validados e transferidos de forma eficaz. Além disso, promovemos ações de capacitação técnica, formação, produção de manuais operacionais e partilha de boas práticas, fundamentais para garantir que a inovação não se esgota na investigação e desenvolvimento, mas se traduz em produtos e serviços que chegam de forma útil e prática ao território e aos utilizadores finais.
5. A gestão de incêndios envolve múltiplos atores. De que forma a interoperabilidade e a partilha de dados podem reforçar a eficácia da resposta e a aprendizagem coletiva?
A interoperabilidade é crítica para garantir uma resposta coordenada e eficaz. Sem sistemas compatíveis, dados e informações partilhadas de forma fluída e em tempo útil, os esforços de planeamento, prevenção e combate perdem eficiência. No CoLAB ForestWISE temos vindo a trabalhar em soluções que promovem precisamente essa articulação entre entidades, desde sistemas de avaliação, monitorização e simulação de risco e de propagação do fogo, até plataformas que integram dados meteorológicos, de ocupação e utilização do solo, histórico de ignições e de incêndios, entre outros. A partilha e disponibilização de dados é também essencial para alimentar modelos preditivos e melhorar continuamente os sistemas que são utilizados ao nível do planeamento e operacional. Mais do que tecnologia, trata-se de promover uma cultura e uma prática colaborativa, de forma continuada e consistente, que se baseie na confiança, na transparência, na execução de uma missão partilhada de proteger o território e as comunidades.
6. Se projetarmos o futuro para daqui a dez anos, como imagina o ecossistema tecnológico que apoiará a resiliência das florestas portuguesas face aos incêndios rurais?
Imagino um ecossistema altamente integrado, com sistemas de alerta precoce baseados em sensores distribuídos, drones autónomos para vigilância e apoio à decisão, plataformas preditivas com inteligência artificial a disponibilizarem outputs e simulações em tempo real, com incorporação de dados operacionais, e disponibilização de uma diversidade de produtos ajustados a diferentes níveis de necessidades, e um planeamento territorial assente em dados de alta resolução, com monitorização regular e continuada. Mas, acima de tudo, imagino um território mais gerido e com um melhor aproveitamento das suas aptidões e ajustado às funções relevantes para a sociedade, mais resiliente, mais diversificado, mais inclusivo e mais valorizado socialmente e economicamente. A valorização e dinamização dos bens e serviços dos ecossistemas, monetarizando um conjunto de serviços, podem ter um contributo decisivo nesta mudança em relação aos espaços florestais, bem como uma melhor integração de valorização de atividades no âmbito da bioeconomia. A tecnologia será um catalisador, mas só funcionará se for acompanhada de vontade política, de formação e motivação dos diversos atores e utilizadores finais, de estratégias de longo prazo, e participação ativa das comunidades. É essa a floresta do futuro, em que acreditamos e para a qual o CoLAB ForestWISE trabalha diariamente.
